Nunes

Depois de ter transado a valer com o crente, creio ter recebido um castigo dos céus: fiquei um tempão sem pegar ninguém. E logo agora que eu estava começando a me liberar do romantismo que só me serviu para me defender de mim mesmo. O romance era para que eu me defendesse dessa pulsão sexual fortíssima… entende? Eu preciso cada dia menos de romantizar para transar. E outra: românticos só se ferram. Você, garoto romântico, sabe do que eu estou falando.

Então conheço esse meio de caminho que é estar cheio de tesão, não querendo soltar as feras e… mesmo que eu as soltasse… eu achava que não pegaria ninguém. E juro que eu fazia super atenção para qualquer sinal de um cara para que eu me aproximasse. Não, não rolava nada. E esse tesão enrustido começou a me fazer mal pra caramba, comecei a ficar menos confiante. E dentro de mim cresceu esse tipo de desejo esquisito, novo para mim, de que, de repente, eu não merecia (ou estava cansado de) os mesmos carinhas fofinhos, carinhosos e artistinhas mequetrefes. Homem rude é o objetivo. E o destino ajudou.

Não sei exatamente onde foi que furei o pneu do carro, ele murchou durante a noite. Tudo bem que o seguro toma conta de tudo mas eu odeio passar por esse tipo de chateação. Mas bem, você não está interessado em saber do meu pneu, eu sei. Mas dai estava eu mesmo na oficina mecânica, c’est à dire, calotas de diferentes modelos nas paredes, aquela banheira com água imunda, macacos hidráulicos e graxa. A graxa era o que mais me incomodava porque… imagina macular de graxa meu casaco Lanvin preferido… tragédia… Logo tirei o casaco e botei no porta malas.

Daí vem me atender o mecânico. Um pouco mais baixo que eu, magro porém musculoso e peludo, mãos enormes, imundas, mas fortes, e imaginei já como seria tirar toda a graxa do meu corpo. Depois de enxugar a mão num trapo, ele se aproxima. E seu cheiro suado, com óleo, loção pós barba barata e sua barba cerrada me deixaram já com uma ereção cabulosa. Apertei a sua mão. Nunes. Corintiano. Estou diante do meu antõnimo! E eu o desejo.

Ah, Nunes, da carne macia pela qual percorrerão meus dedos hábeis… do peito peludo onde esfregarei meu rosto, possuirei seu mamilo com minha boca sedenta de seu suor de macho. Seu cabelo penteado com Trim… que vou despentear te dando de mamar no meu pau…

Estou possuído de tesão; eu sinto seu cheiro que me chama para o amor. Ele invade meu espaço pessoal, minha zona de conforto e me fala muito próximo da minha boca. Um amigo meu tem a teoria que a cor dos lábios é a cor da cabecinha. E eu imagino já a cabecinha dele no meio das minhas coxas, como antigamente faziam. E ele deve ter aquele pau rústico, venoso, grosso, pau de ogro.

Ele abaixou pra pegar a chave de roda e deixou cair um pente, que abaixei para pegar. Ele chegou ainda mais perto e me perguntou… “Bora sair daqui?”

Em meia hora, respeitosamente ele retirava a aliança de noivado e a colocou na cabeceira decadente do motel mais typé de beira de estrada, com ventilador de teto. Pelo vitrô passavam tanto a luz do dia suave quanto os orgasmos fingidos das putas. Eu senti sua bunda pela cueca sintética. Nos beijamos. A barba dele machuca mas sua língua é tão macia, não vigorosa; ah e ele me encoxa, se empolga, toma uma posição dominante sobre mim, me prende os braços. E está lá o crucifixo de chapeado a dois centímetros do meu nariz. E decidimos que ia ser uma foda gostosa e laica. Ele atirou longe a correntinha e eu todo o meu pudor. Não tive vergonha de cair de boca no sacão gostoso e suado dele, e passear a minha língua no seu corpo que tinha ainda um resquício de desodorante baratíssimo. Eu estava certo sobre o pau. Chupei, tomei caralhada na cara. Ele começou a ser mais bruto, e eu deixei. Eu consenti que ele usasse de força, que ele ignorasse todas as minhas súplicas de ir mais devagar. Ele não parava. Ah Nunes, que você é macho mesmo comendo um outro cara. De frango ele me socava rola enquanto eu chupava seus dedos, ou o polegar ou o indicador que me exploravam de maneira tão insolente. Eu que não dava assim faz tanto tempo, o que você está fazendo comigo, seu puto. Me come, seu puto. Desde a oficina eu queria dar pra você. Ofegante, ele parou. Agora é a minha vez, ele disse.

E botei o Nunes de quatro e sim, fui sem dó. Eu não era o primeiro. E ele é quem fodia o meu pau. Nunes, você é homem até dando o cu. Seus gemidos graves, intensos, determinados… ocupavam quase todo o andar do motelzinho. E aceleramos. Eu não aguentei e gozei antes. Mas bati a punhetinha mais gostosa que ele jamais bateu.
- “Não me procure, tenho noiva”, disse ele saindo do meu carro. Estou com azar.

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